Devo, não nego, pago no próximo feirão: A nova ética do endividamento
Na época do meu pai, a dívida, e principalmente a inadimplência , era uma questão que se posicionava no campo da moral e não econômica. O nome limpo fazia parte dos valores aceitáveis pela sociedade do que era certo (honestidade, integridade, civilidade etc.) e isso tinha um peso significativo nas decisões financeiras das famílias. Ao longo do tempo, entretanto, esses valores foram sendo relativizados e ter dívida passou a ser meramente uma questão econômica.
Com discussões sobre o impacto dos juros altos e facilidade de crédito no aumento do endividamento e inadimplência, as famílias passaram a ver o problema como consequência de algo externo e não mais como de suas próprias ações. Assim, saem do papel de protagonistas e assumem o papel de vítimas e como tal, precisam ser socorridas.
Aí entra outro elemento importante: os feirões de renegociação de dívidas. Nesses “feirões”, dívidas antes de R$ 10 mil, são quitadas por R$ 157,00 à vista. Esse exemplo é real, extraído de uma matéria do Jornal Estadão em 19 abril de 2026, onde uma pedagoga de 44 anos, conseguiu renegociar sua dívida que já rolava fazia 10 anos.
De maneira geral, mas sem generalizar, o brasileiro não vai tirar dinheiro do sustento mensal da família para pagar contas em atrasos, sabendo que em algum momento o valor da dívida será drasticamente reduzido.
Diferente dos tempos em que dever era uma questão moral, hoje em dia, dever não faz ninguém passar vergonha: devo não nego, pago, se der, no próximo “feirão”. E a vida continua!