O japonês, a matemática e a alfabetização financeira
O ano era 1996. O cenário: dentro de um vagão de metrô em Tóquio. Quebrando um silêncio ensurdecedor, um senhor idoso sentado ao meu lado, puxou assunto comigo falando em japonês. Ora, como poderia saber o que aquele senhor estava dizendo? Mas ao mesmo tempo, como não responder alguma coisa para aquele senhor que parecia tão simpático?
Meu pequeno e quase inexistente vocabulário japonês não seria suficiente para responder satisfatoriamente, e foi então que resolvi, a cada frase dele, me manifestar dizendo algo como: “HAI”, no sentido de sim, concordando e seguia balançando a cabeça. Aparentemente funcionou, pois fomos “conversando” até meu desembarque. A questão é que como não tinha sido alfabetizado em japonês e nem aprendido a língua posteriormente, não conseguia entender o que ele dizia.
Como até hoje não sei sobre o que aquele senhor tanto falou, fico imaginando duas hipóteses:
1) ele só estava querendo ser simpático – cenário positivo ou
2) ele estava simplesmente “zoando” e o meu “hai” poderia estar hilariamente me comprometendo – cenário negativo.
Mas independente do cenário, não houve, naquele momento e nem no futuro, qualquer impacto na minha vida.
Agora imagine alguém te dando dicas de como controlar, gastar ou investir seu dinheiro, e você mesmo sem entender, faz como eu: diz, “hai” e segue todas as dicas. As consequências podem ser positivas ou negativas e independente de qual cenário, ambas têm grande chance de impactar sua vida, presente e futura.
No Brasil, em geral, as pessoas têm baixo grau de alfabetização financeira e parte disso, deve-se a um nível insuficiente de conhecimento em matemática. A matéria do Jornal do Estado de São Paulo, edição do dia 03 de março de 2022, mostrou o resultado do sistema de avaliação de rendimento escolar do Estado de São Paulo (SARESP), em disciplinas como matemática e língua portuguesa. O ano de 2021 registrou os piores resultados da série histórica da prova. Em parte, a explicação foi devido à pandemia, mas se olharmos esse histórico, os números sempre foram baixos.
Segundo o Saresp, quase 60% dos alunos que terminaram o 3º. ano do 2º. grau, saíram sem saber o básico de matemática. O nível de pontuação necessária para atingir o grau de proficiência básica, é de 275 pontos pelo menos, e o resultado geral chegou somente a 264,2 pontos. O desempenho desses alunos é o equivalente ao esperado para alunos da 5ª. série do ensino fundamental. Observe que esses dados se referem ao do Estado de São Paulo, imagine qual deve ser os números do Brasil nessa área.
Então, tomar decisões de como usar o dinheiro em tarefas como comprar um pacote de café no supermercado, adquirir uma casa ou carro e até fazer uma previdência privada para a aposentadoria, precisam de um certo conhecimento de matemática e finanças pessoais.
Assim como se aventurar em uma viagem ao exterior sem o mínimo conhecimento da língua local ou do inglês é um risco, tomar decisões sobre dinheiro sem um certo nível de alfabetização financeira pode ser mais arriscado ainda, pois qualquer decisão tem o potencial de comprometer seu bem estar e segurança financeira presente e futura.